//e apenas o perigo dá sentido à vida, Ruy Belo

O Urugalo

O Urogalo vive solitário e livre

entoa um canto triste de que vive

e morre se não canta mas se canta

atrai o caçador que lhe dá a morte

É ave vive sobre a morte e cai quando o seu canto

lhe aviva a vida que lhe causa a morte

Não sei que ave é o Urogalo

e se o vi só o vi numa fotografia vista

na contracapa de uma certa revista

Só sei que vive solitário e livre

e sei que a solidão e a liberdade

são condição de vida para quem

quer erger a cabeça sobe a morte viva ou morte morta

O Urogalo canta solitário e triste

resiste à morte apenas porque canta

o canto é perigoso pode ouvi-lo o caçador

mas porque canta leva a cabeça erguida

e apenas o perigo dá sentido à vida

Virá o caçador acabará o canto

mas sente-se viver e não importa a morte

a quem ameaçado ameaça no entanto

porque o canto mortífero dá vida

O urogalo vive solitário e livre e

a solidão e a liberdade condição de vida

podem custar a vida àquele que vive

Mas isso não importa importa só

precisamente isso e nada mais que isso

que seja soltário e seja livre e assim viva a vida

de quem vive não de quem vegeta

e que o seu coração seja capaz da solidão

e que levante o canto em liberdade

e que ao cantar a solidão seja cidade.

 

~ Ruy Belo.

[BELO, Ruy. Transporte no tempo (1973), em Todos os poemas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000, pág. 339]

 

This entry was posted in General. Bookmark the permalink.